17 de outubro de 2012

O Fim






O livro ainda está entre minhas mãos. Releio a última frase, e olho o vazio que resta na página. Acho que é um pouco do que me resta desse instante: uma alma branca.
Viro a página como se buscasse um epílogo inexistente ou um capítulo secreto reservado apenas para os mais curiosos. Procuro em vão por uma frase mais, uma espécie de consolo para meu abandono.
Mas isso é esperar por uma ressurreição. E, para mim, é certo que o final de um livro é uma pequena morte. Jazem ali os desejos que compartilhei com suas personagens, e morre esse mergulho fantasioso que encheu meu mundo de cores diferentes das de sempre. Num empuxo violento, volto à superfície branca da realidade. Sinto meus pés tocarem o chão mais uma vez, e meus sapatos parecem duros e ásperos.
Aproximo o livro de meu rosto e inspiro profundamente, sem me dar conta da estranheza de tal cena. Não importa, é como se beijasse um amor carinhosamente pela última vez. Pouso o livro em meu colo. Sei que aquela é a nossa despedida.
Nada me preparou para este momento, nem mesmo o tato das páginas emagrecendo em minha mão direita. Perco um mundo que era nosso, do livro e meu. Ganho uma porção de memórias que, se forem boas o bastante, se tornam inesquecíveis.
Sempre achei que havia um quê de mágico nesse instante fugaz em que olhos terminam de correr a última palavra de um livro. É uma espécie saudade de algo que nunca tive.
Depois, o livro volta para a prateleira. Agora, ele torna-se um velho amigo, e um dia abrirei suas páginas amareladas para relembrar as histórias que vivemos juntos, como a nostalgia compartilhada pelos amigos de colégio. Sou capaz de perdoá-lo pela crueldade de ter chegado ao fim quando observo que, assim como o toque dos meus dedos envergou suas beiradas, eu também carrego em mim, para sempre, sedimentos de suas palavras.
  


23 de agosto de 2012

Condenados





Era tarde da noite, e uma chuva de gotas densas caía. Elas explodiam no meu para-brisa, mas em um segundo eram eliminadas pelo limpador, que se mexia desesperadamente, como se fosse uma moça obcecada por limpeza correndo atrás de seus filhos e suas lambanças.
Eu seguia meu caminho, movido pelo silêncio da tempestade caindo sobre a lataria do carro. Perdida em meus pensamentos, poderia ter perdido aquela cena. Mas, alguma força invisível fez com que eu olhasse para a minha direita, logo após fazer uma curva. Curva essa que, aliás, faz parte do meu caminho diário, e na qual nunca havia notado nada.
Naquela noite, sob a tempestade, estavam enfileiradas na calçada dezenas de barracas de acampamento. Encharcadas, a lona sacudindo violentamente ao ritmo da ventania, eram barracas de várias cores e modelos que se assemelhavam a pirâmides irregulares e frágeis, como um Egito às avessas.
O que estariam fazendo ali, além de comunhar a triste solidão de uma noite urbana e gélida? Talvez estivessem à venda ingressos para algum desses shows que fazem as pré-adolescentes chorarem e gritarem, foi o que pensei. Abri mais o meu olhar para o cenário ao redor, buscando mais pistas para desvendar tal intrigante mistério. Vi um muro. Um muro alto. Acima dele, um arame enrolado com pontas, como mil lanças ameaçando para todos os lados. Mais acima, uma torre. Uma guarita com grades e vidros escuros. 
Enquanto eu pensava nisso, o cenário já havia deixado a janela do meu carro, mas continuava aceso em mim. Lá dentro, então, estavam os supostos criminosos, os pecadores, os deturpadores, os corrompedores... É o que se diz. E, fora, estavam aqueles que eram inexoravelmente condenados. Impiedosamente, um carrasco chamado cupido cravou em seus corações a flechada imperdoável da eternidade, que leva as pobres almas atingidas a prepararem os pratos favoritos de alguém e a dormirem sob o manto molhado da noite apenas para poder vê-los sendo saboreados pela boca amada.
Naquelas pequenas pirâmides de pano dormiam os verdadeiros prisioneiros, cujo crime principal poderia ser considerado passional e doloso. Sem atenuantes. Seu delito estava impresso nas portas daquelas barracas molhadas, estava iluminado pelo holofote do farol do meu carro ao passar por eles, estava gravado nos muros altos e protegido por mil lanças. Se dentro estavam confinados aqueles que foram julgados culpados, fora estavam os que pegaram um pouco da culpa para si, misturaram com farinha, lágrimas, um pouco de açúcar e perdão, e transformaram-na em bolo de fubá.

________________

Imagem retirada daqui.

24 de junho de 2012

Cinco anos e meio





Lembro da escada irregular que eu subia, e que era cercada por um matagal disforme, invasivo, que exalava um odor úmido que me dava vontade de fazer inspirações que durassem a eternidade. 
Eu caminhava à frente. Quatro pézinhos de pequenos passos incertos seguiam-me. Meus sapatos tinham pequenas lâmpadas à sola, que piscavam luzes vermelhas no contato com a terra. Eram os sapatos que guiavam quem vinha atrás de mim, pois me dotavam de um certo poder de não só ter meus passos anunciados, como de controlar exatamente o efeito que eles produziam sobre o solo.
Eu olhava para cima, e via que aquela escada não tinha fim. Por um momento imaginava que, talvez, eu permaneceria ali para sempre. Deveria ter me despedido dos meus pais. Eu nunca mais voltaria a vê-los, pois eu tinha a grande missão de subir uma escada infinita e, além disso, tinha a responsabilidade de cuidar dos dois pequenos que me acompanhavam, na crença de que eu sabia o que estávamos fazendo. Eu não queria assustá-los, era melhor guardar toda a verdade para mim: eu não sabia para onde estávamos indo, ou se conseguiríamos voltar.
Pensei em nunca mais tomar o sorvete derretido com chocolate da casa da minha avó e por um segundo tive vontade de chorar. Passou rápido quando olhei para cima - tática infalível -, e os meus olhos encontraram a copa das árvores que gentilmente deixavam passar feixes de luz solar que tocavam de leve a minha pele e secavam meus olhos.
Pior seria se a escada tivesse um fim. Que mil perigos e mistérios poderiam ter lá, no topo? Talvez a casa de um gigante que jamais nos deixaria voltar. Talvez ele nos prendesse em uma gaiola, e teríamos que pensar em táticas para que ele não visse que estávamos gordinhos e saudáveis (prato para uma boa refeição de gigante). Talvez houvesse uma cidade de piratas e bandidos, que nos obrigassem a vestir roupas sujas e a viver com eles para sempre. Talvez uma bruxa má com uma maçã ou um dragão cuspidor de fogo. 
Diante de tantos perigos não foi o medo, mas um espírito de aventura que se apossou de mim. Como se minha subida ganhasse uma trilha sonora de animados sons de trompete e tambores, enchi-me com toda a coragem que eu nem sabia possuir. Voltei-me para aqueles novinhos atrás de mim, me olhavam de baixo para cima com um meio sorriso e com um ar de admiração que me tornou mais poderosa do que mil gigantes.
Ainda subindo, vi que a escada se aproximava de seu final. Pronto. Ela realmente tinha um fim.
Mas agora eu não era mais tão pequenininha, nem tão chorosa: o sol secou minhas lágrimas covardes e eu tinha duas almas para salvar dos perigos do mundo.
Ouvi o ruído seco do meu tênis pisar pesado no último degrau. Finquei meus pés na terra como se hasteasse uma bandeira no topo de uma montanha. Eles chegaram um pouco depois de mim, e nós três ficamos parados olhando ao redor. 
Era incrível como a minha coragem, de tão grande, tinha espantado todos os gigantes, bruxas e piratas que viviam ali. Só havia restado o canto dos pássaros e folhas secas que rodopiavam pelo chão.
E, nessas conversas em silêncio das crianças, gargalhamos juntos, e descemos. Para poder subir mais uma vez.

22 de maio de 2012

Adolescer (ou A dor de ser)




Os cabelos meio desgrenhados, numa dúvida se presos ou soltos. A impaciência que reflete a pressa de quem não sabe muito bem sobre o amanhã.
A maquiagem feita pela metade, que mamãe odeia, mas que é ao mesmo tempo igual a que ela usa. Mas isso não é coisa que se diga.
Os dedos das mãos sujos de caneta, os recadinhos dos amigos que marcam a pele e ajudam a fazer essa solidão errante não entrar pela pele.
A roupa não encaixa mais no corpo. Algo sobra, algo falta. Parece um pouco com esse sentimento aqui dentro, algo que às vezes as músicas que ouço preenchem, e que também escapa de mim quando bato portas. Aumento o volume, e assim aquieto meu turbilhão incessante.
Qualquer coisa, menos todos os outros. Menos aquilo que já existe. Menos aquilo que já conheci. Qualquer coisa, desde que seja nada disso.
Esse novo amigo estranho, o desejo. Sujeito estranho, parece que veio para ficar, e não sei muito bem onde fica o quarto para hospedá-lo.
Casaco de gorro, mãos nos bolsos. Amores de verão e todas as outras estações.
Um sono sem fim, cansaço dessa difícil missão de tornar-se. Correr às cegas, num labirinto de espinhos e labaredas.
Meu nome guardado nas carteiras da escola, só para ter certeza que eu deixo marcas. O espelho mostra um rosto desconhecido.
Sorriso tímido de canto de boca, como quem não tem muita certeza se deve. Revistas que ensinam a beijar.
Uma bomba relógio no último segundo bem no meio do peito. Hora é paixão, hora é medo.
E a vontade louca de saber se o fim do mundo é mesmo na linha do horizonte.

23 de abril de 2012

Pintando o Sete


Foram sete dias para construir o mundo, contando com o dia do descanso, que acabaram se eternizando nos sete dias da semana, que se repetem nas vidas de todos ano após ano. Embora se tornem pouco memoráveis, afinal são poucos os que se lembram se aquilo aconteceu numa quarta ou quinta-feira, os dias da semana organizam nossas rotinas em gavetinhas para que, talvez, tenhamos a liberdade de fazer pequenas bagunças inesquecíveis, como sair para comer esfiha numa terça-feira à noite, ou ir ao cinema numa quinta à tarde, só como desculpa para ficarmos sozinhos.
São sete maravilhas esculpidas pelos ventos, pelos (sete) mares ou por mãos humanas ao longo dos milênios. Mãos que poucas vezes foram reconhecidas por seu trabalho como deveriam, mas que deixaram um legado a todos os filhos deste pequeno planeta. Foram sete sábios da antiguidade, que com certeza cometeram alguns ou todos os sete pecados capitais, e talvez por isso eles tenham sido inventados. Dizem por aí que os sete pecados podem até mesmo caber em uma única caixa!
São sete as vidas que os gatos têm para usufruir, e quanto a nós... Não sei. Sei que esta tem valido muito a pena.
O arco-íris colore o céu depois da chuva com sete cores diferentes e, para surpresa de qualquer designer, o aparecimento de um arco-íris e suas simples sete cores chamam a atenção e os sorrisos de qualquer criança ou ancião, atraem dedinhos surpresos em riste que apontam animadamente. 
Os homens tentaram se aproximar de tal perfeição, e foram capazes de criar sete formas de fazer arte. Numa delas, sete notas musicais são misturadas em diferentes combinações e repetições, que muitas vezes causam arrepios nos pelinhos braços e fazem pensar em momentos já vividos. Mas, na verdade, acho que a única arte que consigo usar com certa liberdade é essa daqui, de dar corpo às ideias e sentimentos usando as palavras que guardei ao longo da vida. Muitas delas tenho dedicado à você, espero que isso não esteja se tornando um pouco chato. Se quiser, posso aprender a usar alguma das seis artes que restam, só para variar um pouco. Mas acho difícil que um dia eu atinja o ideal de expressar em detalhes a perfeição do arco-íris que mora em meu peito quando o assunto é você.
Hoje é dia dos sete anos. Sete anos nossos, sete anos em que há um "nós". Sete anos que levamos para construir o que somos e quem nos tornamos hoje.
Sete anos em que meus sonhos ganham mais um protagonista, e que os seus sonhos passam a fazer parte dos meus planos também. Tanto tempo, é o que todos dizem. 
Acho que eles têm razão, é muito tempo. Sete anos em que escolhi estar com você, dia após dia, sem hesitações ou arrependimentos. 
Sete anos é muito tempo, tempo suficiente para  se conseguir ser feliz como muitos tentam por uma vida inteira. Como já fui com você até hoje, como continuarei sendo a cada dia em que escolhermos continuar sendo um "nós".

30 de março de 2012

Mensagem 9

E então um dia eu tive a sorte de cruzar o meu caminho e meus abraços com esse rapaz. E, desde então, aprendi que não importa tanto assim que a gente seja diferente. Porque, no fundo, nós pulsamos no mesmo compasso, e vai ver que foi por isso que foi por isso que só com ele ele eu aprendi a dizer que amo com tanta verdade, que chega a arder o coração.
Passaram-se alguns anos entre a gente, e aí não teve como, aprendemos a ser gente grande. É duro, é sofrido, é bem triste às vezes. Mas tivemos um ao lado do outro. E daí, por algum motivo, o colo dele é capaz de deixar o mundo mais suave, fazer com que o sofrimento escorra devagarzinho. Daqui a pouco, as lágrimas secam e as suas palavras fazem com que eu não tenha mais medo.
Com ele a minha risada também é fácil e boba, e algumas vezes até incontrolável. Chega a dar soluço, por mais que ele ache isso meio estranho.
E de vez em quando minhas mãos ainda tremem um pouquinho quando vejo ele, mesmo depois de todos esses anos. Borboletas no estômago, pernas bambas, bochechas vermelhas. É engraçado, mas ainda acontece, e às vezes fico pensando que nunca vai parar.
E aí, quando tento traduzir isso e tudo mais em palavras, sobra um "Eu te amo", que parece tão pequenininho, não parece?

Acho que para nós é muito mais.

10 de fevereiro de 2012

A questão da escova de dentes




Atualmente estou  morando em uma casa que contém apenas o básico para que uma pessoa viva confortavelmente. É uma situação provisória, enquanto minha vida se ajeita em certos eixos. Tenho alguns eletrodomésticos, como geladeira e fogão, minha cozinha está equipada com um talher de cada tipo, uma panela e dois pratos. Conto com uma cama confortável, algumas poucas roupas, itens de higiene pessoal e o meu computador. E, desde ontem, estou sem televisão.
Aqui na minha casa, em geral, reina o silêncio. Fico só, apenas eu e minha própria sombra, perambulando pelos quartos vazios e pela sala pouco mobiliada. No entanto, apesar da aparente simplicidade, devo dizer que essa vem sendo uma experiência de valor inestimável para mim.
Lembro-me de uma vez, há alguns meses, em que fui escovar os dentes no toillete de um restaurante de um hotel junto a uma grande amiga. Chegando lá, verificamos que todas as pias estavam ocupadas. Nós estávamos com pressa, então já retiramos as escovas da bolsa, e preparamo-las com a pasta de dentes. Eu permaneci imóvel, aguardando pela liberação de uma pia para que eu pudesse umedecer a minha escova. Notei, então, que a minha amiga não pensou duas vezes e logo começou a escovar seus dentes lá mesmo. Provavelmente, eu a encarei com o mesmo estranhamento com que ela me olhou, ao perceber que eu permanecia estática, com a escova parada nos dedos. Eu nunca havia sequer cogitado a possibilidade de escovar os dentes sem molhar a escova antes. A ordem das coisas para mim deveria ser escova-pasta-água-boca, sem questionamentos ou indagações. Mas em um segundo meu pequeno mundinho Tandy foi por água abaixo, e com um simples olhar minha amiga apontou para o meu pequeno-grande paradigma. 
No fim das contas, naquele dia descobri que não havia apenas uma ordem ou regra. Aprendi que escovar os dentes sem molhar a escova dava um desconforto de meio segundo, mas depois todo o processo parecia exatamente igual.
No meu atual acampamento (como apelidei carinhosamente minha casa), todos os dias em algum momento sou tomada por essa sensação de não aguar a escova. É quase como colocar uma luz repentina em um canto de uma sala, e então descobrir que o que você antes achava ser parede, era uma janela.
Dia desses fui ao mercado, e comprei um pé de alface para enfeitar o meu sanduíche. Ao abri-lo, por pouco não estraguei violentamente o plástico que o protegia. Pude conter-me quando lembrei que não havia nenhum recipiente para armazená-lo, e que se eu quisesse voltar a comer alface nos outros dias, deveria desembalá-lo carinhosamente, sem romper a embalagem.
São fatos pequenos, eu sei. Mas assim, com tão pouco, descobri que não preciso de muitas coisas para viver. Talvez até pudesse abrir mão do micro-ondas, que não utilizo há mais de uma semana. 
Compro pouco, e sempre aquilo que com certeza irei consumir. Sem neuroses ou dificuldades, descobri dezenas de formas diferentes de não gastar tanta água ou luz. Como nenhum canal de televisão está funcionando, já tive oportunidade de assistir a ótimos filmes que estavam na fila de espera há meses. Organizei minhas finanças, minhas metas de ano novo, tive um tempo incrível para ficar comigo mesma. Não consigo mais levar uma louça à cozinha sem lavá-la imediatamente.
Faz quase dois meses que o lugar em que moro mudou completamente, e talvez alguns o descreveriam como solitário e triste. Eu, contudo, ainda acho incrível como esse novo lugar cheio de vazios abriu em mim novos espaços.
E, de verdade, poucas vezes fui tão feliz.

________________________________________________

29 de dezembro de 2011

O Defeito



Estamos todos, sem exceção, submetidos a uma lógica capitalista, quer queiramos ou não. Longe ou perto, a favor ou contra, é isso que se apresenta no momento. Estamos na era dos compradores e dos vendedores, na era em que um dos poucos direitos preservados até as últimas consequências são os do consumidor. Não poderia ser diferente.
Quando criança, acompanhava com certo temor as vezes em que meu pai voltava a determinadas lojas para exigir seus direitos, que ele julgara terem sido burlados leve ou gravemente. Nunca havia visto meu pai falando com tal convicção por nada e nem com ninguém, como vi em tais circunstâncias. Atualmente, posso dizer que não segui os passos do meu papito, sou bondosa nas cobranças e bastante tolerante com os profissionais de serviços, e confesso que esse comportamento já me fez ter alguns pequenos prejuízos. No entanto, eles ainda não foram suficientes para que eu mudasse minha postura.
Mas minha heresia não para por aí. Não só sou caridosa com antipatias de shopping, como sou uma  grande admiradora dos produtos com defeito. Acho verdadeiramente belo quando chega às minhas mãos um produto com esse tal "defeito de fábrica".
Estamos falando de um pequeno defeito que escapou ileso a uma fábrica! Justamente o lugar das coisas feitas em linha, de máquinas e operários com especializações microscópicas, executando a mesma tarefa por dias, anos, décadas. O cárcere de corpos e produtos. 
Penso que deveríamos erguer monumentos ao encontrarmos um único produto com defeito. Deveríamos investir décadas de estudos para compreendê-los, e depois deveríamos preservá-los em salas ambientadas, que conservassem sua imperfeição. Poderíamos até montar um museu com eles, e torná-los atrações turísticas das cidades.
Pois que há nesse mundo de mais incrível senão que ainda exista espaço para a imperfeição? Ainda que no ambiente mais inóspito, lá está ela desfilando discretamente, quase despercebida, mas chegando a seu destino final e causando dores de cabeça nos compradores e atendentes de telemarketing.
É assim que o defeito mostra sua inegável superioridade, revelando toda nossa imperfeita humanidade, sobrevivendo a todas as intervenções planificadas e plastificadas, tentativas vãs de sanar aquilo que é imanente à nossa ação: o erro. 
Bastou um microssegundo para que o rapaz que martelava deixasse passar apenas um único prego. Mais um microssegundo, e o seguinte encaixou sem notar uma segunda peça ao prego frouxo. Pequenos microssegundos: um pensava tristemente no rompimento do namoro, o outro estava com uma dor de barriga do jantar farto da noite passada. Um prego solto era levado pela esteira, transformado em coisa, e o homem rude da inspeção, o último da linha, sentiu o perfume da chefe que passou atrás de si naquele momento, e em um flash lembrou-se do cheiro de sua avó, que lhe dava beijos estalados e preparava-lhe bolos recheados quando criança. 
E, assim, chega às mãos do comprador um carrinho de brinquedo com uma porta que não fecha direito. Munido de seu código de defesa, o consumidor corre para trocá-lo por outro, dessa vez perfeito. Troca, sem saber, uma história de namoros terminados, jantares calóricos e cheiro de vovó, por uma outra que conseguiu atravessar uma fábrica inteira sem nenhum resquício de humanidade.

_________________________________________________________

Faço desse um atípico texto de Feliz Ano Novo. Para que as pessoas sejam mais benevolentes com os  defeitos, de uma forma geral :)

22 de setembro de 2011

Encontro




- A tua arte é uma baboseira de criança.
Sem sutileza alguma, o Músico iniciou a conversa. Já de partida, empurrou essa frase para os ouvidos do Ator que, atordoado, não conseguiu responder à altura imediatamente:
- Como?
- Baboseira de criança. A minha filha de seis anos constrói jogos de faz-de-conta melhores do que os teus. Ela cria vozes, imita, ela improvisa as mais hilárias cenas. E, quando necessário, é capaz de fazer brotar lágrimas dos olhos. E, pasmem todos, acredito muito mais nela do que em ti, Ator. 
- Pelo menos, meu caro, guardamos um pouco dessa jovialidade que tu, Músico, perdeu no instante em que quis tornar tua arte quase uma ciência exata. Tua arte tem tão pouco de arte, meu caro. É tão pouco pulsante, é tão entediantemente avaliável e quantificável. Quase uma matemática.
O poeta, que até então mantivera-se escrevendo algo em seu bloco de notas, olhou sobre os óculos pousados na ponta do nariz e interveio:
- Que há de errado com a matemática, meu caro Ator? A métrica é capaz de magias. E invertê-la, também. Liberte-se desses preconceitos vis. Teu desespero por liberdade acabará por levá-lo à falência.
O Músico riu gostosamente: todos sabiam que o ator era o mais mal pago dos artistas.
- Vem falar de preconceitos a mim? Por que não se refere ao preceptor dessa vã discussão?
- Que posso eu dizer sobre o Músico? Para mim, apenas uma arte calada. Ainda tenho dificuldade em qualificar como arte algo que não usa a linguagem, esse presente que os deuses entregaram em mãos humanas.
O Músico a essa altura já estava com as faces rubras e com um grito raivoso dentro da boca, mas foi detido pelo Pintor, que tomou a palavra para si. Sua voz saiu rouca e fraca, como quem não fala há semanas, mas sua raridade calou todos os demais.
- Um engano leigo demais para um profissional experiente como és, Poeta. E quem disse que a linguagem reside apenas na palavra? O que não é palavra além de um mero desenho tosco e repugnante, capaz apenas de transmitir parcialmente o que penso e sinto? Sim, pois quando digo 'flor', entenderás algo que é flor para ti. Mas nunca saberás qual é a flor sobre a qual falo, ainda que eu descreva-a exaustivamente. Mas, se traço no papel a flor que tenho em minha cabeça, num instante acessará todas as cores e sensações que trago em meu íntimo. Saberás a exata cor das pétalas do girassol que tenho meu jardim.
Apesar de todos os três terem algo a falar, as barbas brancas do Pintor impunham certa necessidade de reverência. Para o Ator, três segundos de silêncio já haviam sido reverência o bastante:
- Pois proponho um desafio ao respeitável Sr. Pintor: pegue tuas tintas, pincéis, ou quaisquer outras armas gráficas que possua e represente, então, o amor. E não qualquer amor, mas o teu amor. Quero ver tua tela e compreender exatamente o que é o teu amor, como se visse uma margarida ou um girassol que cultives em teu jardim.
O Pintor arregalou os olhos de um jeito como só fazia quando estava mergulhado em seus trabalhos. E o Ator continuou:
- O afeto que desperto nos meus expectadores só acontece porque a minha arte sou eu. Não preciso de complicados instrumentos, de papel ou tinta. A minha arte é esse corpo imperfeito, essas emoções universais que explodem pela pele.
- É por isso que tua arte é efêmera. É por isso que não tens memória. Pergunto-lhe o nome de um ator da Grécia Antiga, meu amigo, e garanto que não saberá. Mas conheces os célebres dramaturgos tornados imortais por suas tragédias e comédias.
- Queres fazer arte para ser lembrado? - provocou o Músico.
- Oh, Músico, e tu não queres? - o Pintor o fitava com firmeza - Não me venha com falsos idealismos. É o que queremos, ora. Sabes disso.
Com o susto do elemento comum que os uniu, um riso tímido escapou do canto direito das quatro bocas, que antes proferiam tão diferentes discursos. Perceberam, num segundo, que o que mais queriam era dobrar  a condição implacável da vida: a morte.


_____________________________

Ainda não decidi se esse conto acabou ou não. Decidi publicá-lo mesmo em estado de rascunho.

8 de agosto de 2011

O dia do novo.



O dia do novo poderia ser todo dia. Feito assim, de sopetão, sem grandes planos ou conjecturas. Há um dia em que os cílios se afastam e então sabemos que aquele é o dia do novo. Sinto por aqueles que nunca experimentaram um dia desses, eu já tive a oportunidade de ter um desses várias vezes, e posso dizer que um dia é o que alguém precisa para mudar uma vida inteira.
Acho que consigo sentir quando um dia desses se aproxima... É quando uma rotina viscosa se acumula sobre as nossas coisas, sobre a nossa pele. Um cheiro de mofo e madeira velha parece se estabelecer dentro das narinas, um gosto de pão velho fica revolvendo nas paredes da boca sem nenhuma explicação. O brilho foge dos olhos e uma cegueira seletiva nos impede de ver brilho nos olhos alheios também. Os dias são todos iguais, e tornamo-nos incapazes de rememorar a semana anterior. Ela será pateticamente esquecível.
Tenho um certo inconformismo inato em aceitar que muito mais de 80% da minha vida cairá no precipício escuro do esquecimento. Lutarei contra isso infinitamente, ainda que seja uma guerra perdida desde o princípio.
O dia do novo não é feliz, colorido ou necessariamente harmonioso. Ninguém disse que o novo chegará de mansinho, distribuindo beijinhos e abraços. Na maioria das vezes, muito pelo contrário, ele terá tanta sutileza quanto um búfalo feroz e faminto.
Sejamos doces com ele, apesar de sua brutalidade, porque esse novo é precisamente a chama viva que mantém a esperança de talvez, um dia, chegarmos a um lugar mais humano do que esse que ocupamos. É o dia em que o Universo te empurra para aquela decisão postergada, o investimento arriscado, a ideia ousada por muitos considerada insensata. É o dia em que você terá que bancar as suas próprias escolhas, não importa o quanto você tenha medo delas.