25 de abril de 2010

E então...

E então, sou eu, tão mil.

Um milhão de facetas recobertas por um par de olhos claros que me acompanham desde que nasci. Talvez só os olhos permaneçam os mesmos.
Acho que já não sou mais a mesma, acho que hoje sou um milhão.

Dentre todas elas, e são muitas, eu não posso escolher entre uma só. Eu sou várias, que mudam conforme a minha cartela de anticoncepcional, conforme o jeito como prendo meus cabelos, o cenário que envolve minhas ações, as pessoas que me rodeiam.
E quando escolho ser a heroína para um, sei que instantaneamente me tornarei a vilã de um outro.

15 de março de 2010

A mulher e a abelha

Num dia de um sol cansado, um sol urbano que já nem brilha, apenas descasca, lá estava ela, tão diferente de tudo. A pessoas que passavam na rua estavam todas vestidas de tédio: saias cinzas e paletós marrons. Tinham os músculos da face tão contraídos, tão marcados, que me lembravam troncos de uma árvore bem velha, dessas que morrem e caem sobre carros.
Mas ela não. Ela era como um botão de flor: tinha traços tão delicados que chegava a dar pena.
O cabelo curto, totalmente branco, fazia uma moldura redonda, envolvia sua face em madeixas lisas bem penteadas. No rosto repousavam olhos suaves, que não estavam alheios a nada e buscavam o tempo todo por um motivo para sorrir. Quando os vi, pensei em borboletas.
A pele era alva como uma tela. Minha memória pode estar me enganando, mas não me lembro de haver rugas em sua face. Sua boca, pequena e rosada, parecia ser o lar da gentileza.
Ela era o contrário do mundo. Parecia ser a única em meio a tanta gente que, de fato, via o sol. Ele parecia querer brilhar só para ela, também.
Sentou-se no único lugar em que a luz do sol não estava coberta por construções, telhados e metais. Ficou ela observando a tudo em seu cantinho iluminado, enquanto o mundo marrom seguia com pressa.
Ela vestia vermelho. Vermelho vivo, sem vergonha, sem vaidade. Um vermelho, assim, orgulhoso.
Acho que só eu e ela vimos o momento em que uma abelha, que há muito circulava por ali, pousou exatamente sobre o dorso de uma das suas mãos, que estava apoiada suavemente sobre as pernas.
Imediatamente o olhar sapeca da mulher voltou-se para abelha, mas não com aquela habitual pressa angustiada de afastar resíduos de natureza. Ela olhou-a como quem, plácida, aprecia uma conhecida que se aproxima.
A abelha correspondeu à calmaria, e lentamente passou a caminhar sobre mão magra e gentil da doce senhora. Passeou sobre a palma alva, sobre o dorso carregado de sardinhas, explorou os dedos suaves, as juntas levemente inchadas. E a mulher simplesmente olhava e abria os dedos, dando mais espaço para a pequena explorar.
A abelha parecia ter encontrado um bom lugar para descansar depois de um exaustivo dia de trabalho, e mulher a observava com uns olhos de admiração. E eu entendi o quanto ela estava orgulhosa por ter sido escolhida como repouso daquele ser tão perfeito em sua pequenez.
Agora ela sorria abertamente, e trazia a abelha para bem perto dos olhos. Enquanto a abelha andava em uma das mãos, com a ponta de um dedo da outra a mulher começou a acariciá-la. Fiquei admirada quando vi que a abelha não assustou-se com as carícias, e ficou ali, parada.
E a curiosidade tomou conta de mim quando vi que, naquele instante, a mulher passou a sussurrar algo para a abelha. Ela sorria e falava baixinho algo que eu daria o universo para poder ouvir.
Pensei que eu não teria nada para dizer a uma abelha que distraidamente pousasse sobre uma das minhas mãos, e me senti muito estúpida por isso.
A senhora de vermelho parecia tão envolvida com aquelas palavras, e elas escorregavam tão suavemente de sua boca que cheguei a sentir inveja. Alguma vez na vida minhas palavras flutuaram tão suavemente quanto as daquela mulher?
Meu ônibus se aproximava, e eu tive que desligar-me daquele mundo que era feito de vermelho, abelhas e palavras aladas. O ruído de freio, a porta que se abriu bruscamente diante de mim. Eu ainda encantada, e o motorista que me olhava impaciente, enquanto eu, indecisa, não sabia se subia os degraus ou se continuava olhando para a senhora de cabelos grisalhos.
Lembrei-me de que eu tinha pressa. Em casa me esperavam coisas. Coisas a fazer. Não sei bem o que eram.
Cortei o fio que me ligava a ela, e com um certo pezar subi a escada do ônibus. A porta se fechou num tranco. O motor velho roncou, o motorista mal-humorado bufou.
Olhei pela janela, e ainda a vi por mais alguns segundos. Agora ela me olhava, e talvez até a abelha me olhasse também. Ambas sorriram.
Eu parti.

7 de dezembro de 2009

Hoje nasceu um botão

Hoje, uma segunda-feira que não se decidia entre a chuva e a neblina, todos os raios de sol estavam guardados em meu coração.
Inesperadamente, hoje nasceu uma flor. Uma rosa que será branca, rosa, vermelha, multicor. Um pequeno botão, sensível e inacreditavelmente lindo.
Hoje nasceu uma flor, é o que lhes digo. E ainda não sei como ela será: ainda é apenas um botão. Mas é uma flor que, desde seus primeiros minutos, me encanta. Rouba meus olhos, leva um calor suave para minhas pálpebras.
É por essa flor que estive buscando até hoje. Eu não saberia que a encontraria assim, tão linda, tão cheia de vida, ainda em forma de bebê.
Alimenta-se em um solo firme, fértil, de onde muitas outras belas flores já surgiram, e hoje abrem-se abrilhantando milhares de olhos.
Essa pequena flor que surge ainda é pequena, mas quer ser forte e linda. Não sabe ainda como e quantos serão seus espinhos, quando virão os dias de tempestade e os dias de sol, não sabe qual será exatamente seu formato. Mas, ainda assim, em sua delicadeza de filhote, ela já é encantadora. E promete ser fonte de beleza a cada pétala que se revele, a cada folha que se desdobre.
Essa flor nasceu hoje, e eu tenho a feliz tarefa de eternizá-la.

Foi hoje que eu aprendi a fazer poesias.


________________________

Em comemoração à minha primeira aula ministrada para minha primeira turma de prática do Método DeRose.

23 de novembro de 2009

Nuvens

Nem todo sentimento
é azul.

E quando mares sobem
aos cílios,
as cores se confundem.


____________________________
Encontrei esse texto no meio de vários outros, perdido. Eu não sei de quando ele é, e nem sei no que extamente eu estava pensando quando o escrevi. Mas, ainda assim, hoje ele me tocou.

20 de setembro de 2009

De repente

E, numa tarde qualquer de primavera, em um dia que pedia para ser infinito, uma lágrima rolou dos meus olhos e eu tive certeza. Pela primeira vez olhei para mim.

Foi naquele dia, há mais ou menos um ano atrás, que eu tive certeza.

A partir daquele dia nada mais foi difícil. E mesmo os mais altos e duros obstáculos, atravesso-os com um sorriso nos lábios, porque passei por aquele dia.

Aquele dia em que tive certeza. Aquele dia em que uma música tocava, e eu tomava uma decisão: quem eu queria ser dali pra frente.
E lá eu soube exatamente o que eu precisava para ser feliz, e de antemão decidi qual era o próximo passo.

Foi naquele dia em que a neblina da dúvida saiu da frente dos meus olhos, e eu vi.
Eu vi de verdade, tão plena e nitidamente, o que sempre estivera bem na minha frente.

Hoje em dia corro atrás de um sonho. Compartilhado por alguns, incompreensível para outros. Mas não importa o que digam ou vejam, porque só eu vi.

Naquela tarde de primavera que pedia para ser infinita, tudo ficou tão claro. De repente.

14 de setembro de 2009

Tango

Desenho meu eu. Minhas mãos já não tão trêmulas quanto antes esboçam seus primeiros rascunhos.
Às vezes, um ou outro rabisco certeiro.
Desenho a lápis. Não lido bem com a irreversibilidade da caneta tinteiro.
Também uso cores. Cores que rasgam o papel, encantam os olhos, brilham, convidam para um baile silencioso! Embora o preto e o branco, o tudo e o nada, digam muito sobre quem sou.
Pensando bem, talvez nem tanto.
A aparente simplicidade do enlaçar do risco preto no puro branco papel apenas facilitem as coisas... por alguns momentos.
Reescrevo meu passado, futuro e presente incansavelmente, faço um desenho da minha alma. Traço o rosto que quero ter. E ele está em constante revolução!
Meu sorriso ganha mais razões, minhas palavras significados.
Os segundos tornam-se curtos ou extensos: alongam-se ao infinito, quebram a velocidade da luz. O tempo e o mundo dentro das minhas pupilas transformam-se naquilo que eu sou: dançam um tango comigo.
Rabisco minhas verdades, desenho meu rosto, danço meu tango.
E o que é a vida senão uma dança de salão nunca ensaiada?

6 de agosto de 2009

Beber, cair e levantar.

Às vezes as pessoas me perguntam por que eu tomei essa decisão tão radical na minha vida de não beber nenhum tipo de bebida alcóolica.
Bem, pra começar eu já não gosto muito dessa pergunta, porque com certeza eu não perguntaria a ninguém por que, então, beber.

Mas deve soar mais estranho do que eu imagino conhecer uma jovem de 21 anos, que estuda na USP e em pleno século XXI tomou a decisão de não ingerir uma gota de alcóol. Provavelmente, isso deve fazer com que as pessoas pensem que elas têm permissão de questionar minhas escolhas. E, ainda, me julgar a partir delas.

De qualquer forma, elas me fizeram um bem. De tanto perguntarem, ou de me olharem como se eu fosse de outro planeta, comecei a pensar muito sobre o tema, e cheguei a algumas conclusões que fazem muito sentido para mim.

Antes de mais nada, acho imensamente triste que as pessoas não consigam fazer-se felizes de outra forma que não sendo elas mesmas. A verdade é que as pessoas sabem do que elas precisam para ficar alegres: elas sabem como elas querem dançar, quem elas querem beijar, sobre o que elas querem falar. Mas elas simplesmente não conseguem dançar, beijar e falar livremente, porque estão amarradas em uma série de rótulos sociais dos quais não conseguem se desvencilhar de forma alguma. Estão o tempo todo preocupadas com o que os outros vão pensar, como irão parecer, com a imagem que vão construir.E a única saída que encontram para isso é colocando-se um novo rótulo: "Ah, ele(a) está bêbado!", e com isso ganham o aval para, por alguns minutos, ser quem elas sempre quiseram ser. E todos "desculpam" porque, afinal, ele(a) está alegrinho!

Seja isso bom ou ruim, eu acho que eu nunca tive grandes dificuldades para fazer o que eu tinha vontade de fazer sendo eu mesma. Dancei, passei vergonha, tive conversas filosóficas absurdas, falei que amava todo mundo, me declarei, gargalhei... E, hoje, diversas vezes escuto que quem não bebe "esconde" algo.

Sinto muito, meus amigos, mas no meu pensamento é exatamente o contrário: quem bebe é que só consegue ser feliz dessa forma. Pouco ou muito, ele precisa de um empurrãozinho para ser livre.

É muito triste que para nos livrar das máscaras sociais que vestimos, tenhamos que abrir mão da nossa possibilidade de fazer escolhas e relembrar os bons momentos. Tenhamos que abrir mão da lucidez que nos faz perceber tudo, completamente, e vivenciar todos os momentos utilizando cada sutileza dos sentidos do nosso organismo. Tenhamos, além de tudo, que deixar de lado o bem estar do nosso corpo e da nossa saúde a longo prazo, que na minha concepção são a única coisa verdadeiramente sagrada.

Para mim, alcóol é uma droga como qualquer outra, mesmo as ilegais. Aí alguém me diz: "Mas é bem mais fraco!". E eu digo que, mesmo que fosse mais fraco, as pessoas compensam na frequência e no tamanho das doses...

Talvez isso pareça um pouco antipático para alguns, ou tavez para todos (ou quase ). Ao postar esse texto, não pretendo soar a velha chata, e nem dizer que não estarei ao lado de quem bebe, nem que julgo todos aqueles que bebem.
Liberdade é minha filosofia de vida.
Isso é o certo para mim e, por isso mesmo, tenho certeza que não será o certo para todos.

Esse texto é apenas um desabafo de alguém que cansou de ser "freak" só por causa de uma escolha.

12 de julho de 2009

Família

Quando falo do passado da minha família, não tenho modéstia nenhuma ao dizer que a história que me precede é uma das mais lindas que já conheci.

Minha família é, basicamente, uma família de mulheres. Mulheres que, em sua maioria, compartilham do mesmo nome: Luiza.
E as que não compartilham desse nome, acabam adotando também esse jeito 'Luiza' de ser.

Sou cercada por Luizas. E esse nome pode não significar para o leitor o mesmo que significa para mim. Mas as Luizas que conheço são tão fortes e sensíveis quanto é essa palavra.

Sempre tão Luiza.
Ela, sempre tantas!
Mulher singular,
mulher plural.
É única,
e ao mesmo tempo é muitas.
Luiza,
as mulheres da minha vida.

Luiza é anjo,
embora seja ótima como fera.
E mesmo que ela insista
em ser tempestade,
Luiza também é linda
quando é só brisa.

Ela fincou as garras na vida
e com a mesma gana
cravou-as nos corações desavisados.
Não que suas marcas não doam
(muito pelo contrário),
mas Luiza tem a palma
e o colo de algodão.
E com a mesma força que fere
instala-se no eterno das almas.
E ali fica.
Porque Luiza quando ama,
é inteira feita de amor.

Luiza.
Um nome que não diz
sobre quem elas são,
e nem é de todas elas.
Mulheres contrárias e complementares
que me deram o mundo.

O que há de Luiza em mim
é tesouro.
Porque sei que um dia terei asas,
talvez garras...
e poderei ser como elas.
_____________________________________
Palavras dedicadas às Luizas da minha vida: minha avó, minha mãe e minhas três tias.

12 de junho de 2009

Namorandinho...

O vento balança os cabelos.
Os fios dos meus cabelos enlaçam o rosto dele. Suavemente, com a ponta dos dedos, ele afasta-os para alcançar meus lábios.
Toca suas mãos na minha cintura. De repente elas me tomam, e nós já estamos num abraço.
A pele da minha face descansa sobre o peito dele, e eu sinto as batidas de seu coração. São tão suaves...
Meus olhos estão fechados, estou envolta por braços que me aquecem, que me protegem. É só naqueles braços que eu sei exatamente qual é o meu lugar.
Ele me diz algo, que só eu sei que ele disse. Eu respondo, apaixonadamente, quase num sussurro.
Toco o rosto dele também, sentindo cada pedacinho daquela feição que me surpreende a cada olhar. E nos olhamos, assim, atônitos. Como se nunca tivéssemos nos visto antes. Como se nada mais no mundo existisse além daquele encontro.
Os lábios procuram-se espontaneamente, atraem-se mutuamente. A maciez do seu toque faz arrepiar cada milímetro de pele.

E ficamos assim trocando segredos e carinhos por horas, dias, anos.

26 de maio de 2009

Sem tempo

Sou uma engolida.
Uma perdida.
Uma, uma e só uma.
Uma qualquer coisa.

O tempo, que tirano!
Sempre tão inesgotavel,
consegue me engolir,
e me cuspir em seguida.

Eu, uma cuspida.
Uma sobra.
Uma esgotável.

Esgoto-me a cada ruído,
e refaço-me.
Eu,
uma tentativa.