15 de agosto de 2013

As lembranças que ficam



Não preciso de nenhum esforço para puxar o fio da memória, e como que tecendo uma carreira de crochet, uma lembrança engata na outra, e no intervalo de um piscar de olhos as mais deliciosas histórias vão colorindo meus pensamentos. Imagens, sons, perfumes, sabores e texturas bailam por minhas lembranças formando uma ópera regida com a maestria que só a infância sabe dar.
O gosto da massa crua do bolo de chocolate e o barulho da colher raspando a tigela me trazem o tilintar da coleção de moedas, que ficava dentro do pote de sorvete. Brincar de cavalgar no braço do sofá, me faz lembrar da guerra de canetinhas enquanto eu fazia a lição. Então, passam algumas histórias, e percebo que em quase todas elas, lá está você.
O cheirinho de arroz e feijão quando eu chegava da escola. Ficar olhando pela varanda a chuva transformar a rua de baixo em uma cachoeira. Rua essa, aliás, que tinha os mais altos penhascos, que eu pulava um a um, e você pacientemente (hoje sei) me parabenizava por cada um dos meus grandes saltos. Se havia tombos, o mercúrio vermelho era cuidadosamente colocado sobre a ferida, com soprinhos gentis entre uma gota e outra. Se ainda assim doía, seu abraço acolhia meu choro sentido.
O silêncio que havia na Igreja enquanto eu te esperava, e caminhava me equilibrando pé ante pé no apoio para joelhos, até andar todos os bancos, num ansioso aguardo pelo churros de doce de leite. Até hoje é meu doce predileto.
Os pequenos pedacinhos de linha e lã que infestavam o chão do quartinho de costura, colorindo-o. O barulho da máquina trabalhando a todo vapor enquanto você fazia as fantasias de apresentação de final de ano da minha escola. As centenas de formiguinhas que passeavam no tapete da sala - eu juro que elas estavam lá, mas sumiam quando você as procurava.
Comer as amoras no pé, até a ponta dos dedos e a língua ficarem vermelhas. Esquentar o sorvete no micro-ondas, misturar a calda de chocolate e sentar para assistir televisão. As almofadas enormes que cobriam a cama, e que formavam uma ótima cabana quando eu precisava me esconder.
O sono depois do almoço, e todas as vezes que acordei antes só para ficar mexendo no seu cabelo enquanto você dormia. Aquela fome que me dava à tardinha, e que só passava se eu repetisse o almoço.
As longas negociações para ir à aula de natação. As longas redações para a escola. As longas conversas que você tinha com suas amigas no sofá. 
O cesto de roupa suja, de vime branco, e o triste dia em que descobri que eu não cabia mais dentro dele. A gaveta das suas maquiagens e escovas de cabelo. A caixinha de música. A Bíblia. O espelho com moldura de metal que, para mim, parecia ter saído de alguma dessas histórias de princesas.
O barulho da dobradiça da porta de vidro da estante da sala, o vento forte que batia derrubando, e às vezes quebrando, os porta-retratos que ficavam sobre ela. O cheiro doce do armário onde ficavam o pote de pão de mel e a caixa de bombons. 
O aroma do seu café. O dia em que aprendi a fazer seu café. A prender botão. A dar o ponto atrás. A segurar na agulha de crochet. A ir sozinha até a padaria. A atravessar a rua. A andar de ônibus. A guardar os pratos. A escolher a lã para a tapeçaria. A jogar buraco. E tantas mais outras coisas que aprendi, justamente as mais valiosas, mas que são grandes demais para caber no curto espaço da palavras. 
Foi com você que aprendi que não há nada tão libertador quanto a constância de um amor transmitido em gestos. São atos que duram um átimo, mas acabam guardados a sete chaves na gaveta mais sagrada da vida do ser amado e, como que por mágica, lembranças se transmutam em relíquias eternas. Vinte anos depois, o gosto do seu arroz com feijão, os saltos na calçada e todas as outras histórias são como um píer seguro para o qual aporto todos os dias da minha vida, e assim posso, destemida, continuar a navegar oceano adentro.

Obrigada por me dar minhas melhores memórias.

14 de junho de 2013

Criador de monstros em moinhos de vento





Queria poder escrever algo que, de fato, falasse por mim. Algo que imprimisse no papel o que eu venho tentando há tanto tempo, desde que me lembro escrever.
Eis aqui o paradoxo do escritor: no fundo, ele se sente um homem mal compreendido. E a responsabilidade não é dos outros por portarem algum tipo de incompetência compreensiva, mas do Próprio, pela inabilidade expressiva. 
A minha teoria é de que a minha perseverança incansável na escrita reside justamente na minha incapacidade de falar usando menos. O pouco com o qual todos os felizes não-escreventes se contentam, o pouco que precisa só de duas ou três linhas para contar satisfatoriamente como foi o dia.
O que para mim é miséria, para a maioria é abundância e ponto. Resta-me essa fome às avessas, porque o desejo pela letra é tão voraz quanto o do estômago, mas a diferença é que as palavras não são engolidas, mas precisam deslizar, escapar, e assim são despejadas de dentro mim. Às vezes cuidadosamente, é verdade, numa cautela quase matemática. Mas às vezes é numa única golfada, desmedida e emocionada.
Não importa como se dá esse escape, cada texto escrito é um alívio parcial e temporário para esse esvaziamento persistente que renasce, forte, quando menos se espera.
O escritor é um bandeirante solitário. Desbrava a linguagem, essa floresta enorme e multifacetada e, dentro dela, quer encontrar seu próprio dialeto. Para ele não bastam as trilhas já sistematizadas e as frases já ditas. Ele sente que pode (e deve) dizer algo que somente ele é capaz, e abraça essa tarefa como uma missão. Frequentemente, ele não sabe por onde começar e passa a vida tentando. Sorte de quem o lê.





29 de maio de 2013

Sagrados



Acredito no que meus olhos vêem.
No que a boca beija e saboreia.
Os perfumes que preenchem meus pulmões
despertam minha mais profunda fé.
E as texturas que percorrem a pele,
e os sons que musicam em meus ouvidos.

Vejo, ouço... sinto.
Isso é crer?

Tudo que está além dos meus sentidos,
pouco me interessa.
Nos meus sentidos moram todos os mistérios,
e gastarei a vida a desvendá-los.
Prazerosamente, um a um.

E, se um dia, provarem-se errados
os canais que me conectam ao mundo,
morrerei sorrindo e direi:
Ao menos, vivi!


___________________________________

Brincando de ser Caeiro. Espero que ele não se revire na tumba.

8 de maio de 2013

No ônibus







Eram duas mulheres no ônibus. As duas mulatas, de alguma idade indefinível, algo entre 20 e 40. A primeira, magra e com os olhos fundos, vestindo uma saia marrom até o tornozelo e uma blusa azul com os dizeres "Jesus me ama". Cabelo liso, castanho, preso num despretensioso rabo de cavalo baixo. A segunda, um pouco mais gordinha, com o rosto redondo e risonho, o cabelo crespo e curto, mas também preso. Sua saia bege caía até o chão e uma camiseta branca cobria os seios fartos.
E o menino. Filho da primeira, uns três anos, uns olhinhos vivos e bochechas sobressalentes que davam a ele um ar risonho. Comia um salgadinho fedido e, alheio à conversa das duas, olhava pela janela.
O meu registro começa com uma fala da de blusa azul:
- Porque o pastor, com a graça das palavras de Cristo, disse que não cabe a nós julgar.
- É, não há porque julgar.
- Jesus não julgava ninguém!
- É o milagre de Deus na terra!
- Jesus era mais do que um milagre.
- Muito mais! Jesus era tudo!
- Ele não era, é!
- Ele era, é, e sempre será!
- Sempre será!
- Graças a Deus!
- Graças a Deus!
Divertia-me com a discreta disputa das duas para saber quem louvava mais, numa dialética cuja síntese era sempre concordar na fé. Foi quando o pequeno interrompeu-as:
- Mamãe! Mamãe! Olha mamãe! Um fuca! Um fuca!
O ônibus estava parado no semáforo, ao lado de um fusca amarelo-colonial. Até hoje me impressiono como esse modelo automobilístico ganhou um quê mitológico, atraindo olhares das mais variadas gerações de crianças, quase como contos de fadas  O menino apontava para o carro e gritava seu nome repetidas vezes, com a boca e os dedos melecados de salgadinho colados na janela, os olhos brilhando de fascinação autêntica, como se aquele fosse um espécime raríssimo.
O diálogo sagrado das duas por um instante foi quebrado. Disseram algumas palavras de aceitação, apenas para corresponder ao entusiasmo do menino, mas logo voltaram ao assunto anterior. O menino calou-se quando o sinal abriu. Seus olhinhos acompanharam o fusca até que ele se perdesse em meio aos outros carros.
A segunda, da saia bege e rosto redondo, foi quem retomou a conversa.
- Esse mundo está cheio de gente perdida, de mulheres sem pudor, homens que só pensam nos prazeres da carne, gente drogada, viciada, perdida na vida. Falta Deus no coração dos Homens!
- Deus, que nos deixou palavras tão bonitas, e nos deu a vida, e nos deu tudo que nós temos.
- Todo dia dou graças a Deus por tudo que Ele me deu!
- Deus abençoou tanto a minha vida!
- A minha também. E dou graças a Deus ao dia em que conheci o pastor!
- Homem santo! Antes de frequentar o culto eu era uma perdida, graças a Deus hoje em dia estou mudada.Tenho tudo, nada me falta.
- E eu, então? Conquistei tudo de bom da minha vida, me tornei uma pessoa de Deus! E Deus só me deu coisas boas!
- Graças a Deus!
- Graças a Deus, nosso Senhor!
Enquanto as duas, ainda falando, já se levantavam para descer do ônibus, o menino retomou seu chamado, agora olhando firmemente para a mãe:
- Mamãe! Mamãe!
As duas pareceram elevar seu tom de voz. O menino persistiu:
- Mamãe! Mamãe!
Mais uma vez, o menino nada conseguiu. Dessa vez, com um tom de voz infantil que misteriosamente se destaca de todo resto:
- Mamããããããe!
O ônibus parou no ponto. Silêncio. As duas se entreolham. Alguns passageiros voltaram-se em direção à tríade.
- Faltou o fuca!
- Quê?
- Deus deu tudo, mas esqueceu o fuca!
A porta se abriu, e os três desceram.


______________________
Baseado em fatos reais.

8 de janeiro de 2013

Um sonho




Todo sonho é assim, feito de três partes: a massa de baixo, o meio cremoso e a massa de cima, num tipo de paraíso convexo. Ficam lindamente alinhados na vitrine da padaria, em todos os tamanhos.  Há os pequenos, que matam aquela vontadinha rápida de doce; os médios, que enchem a boca por quatro ou cinco mordidas e deixam os dedos melados; e os gigantes, que podem ser comidos por apenas um guloso, ou divididos por toda família.
Os melhores são os quentinhos, fresquinhos. A massa crocante por fora e fofa por dentro, o creme de confeiteiro cor amarelo-bebê, o açúcar espalhado em volta. Quando você termina de comer, lambe os lábios e ainda irá senti-los doces.
Um sonho perfeito é até parecido com o sonho mesmo. Aquele que a gente deseja, não o que a gente dorme.
O sonho-sonho também tem três partes: um antes, um durante e um depois. A primeira, a de baixo, é a mais sem graça se comparada às outras três. Mas se você tivesse só ela, acharia meio bom também. Meio bom, e só. 
A do meio, do durante, é a mais macia e doce. É ela que faz o sonho ser um sonho e não bolinho de chuva ou um delírio. E mesmo que você tenha a sorte de saborear muitos e muitos sonhos, é a camada do meio que faz com que você sempre queira mais um. 
Finalmente, a que vem por cima, do depois, faz com o sonho fique completo, fechado, num sanduíche de perfeição que cabe no espaço da memória.
Assim como o doce de padaria, o sonho também tem tamanhos diferentes, e quanto maior ele é, mais difícil é aguentar um sozinho. Precisamos de outros que apreciem junto, senão ficamos estufados com tanto sonho, ou até tristes por termos um sonho inacabado jogado no lixo.
Se o sonho está velho, esquecido, ele endurece e até mofa. Não dá mais tempo de vivê-lo. Ele azeda.
Talvez, os sonhos-doce perfeitos tenham ganhado esse nome porque foram inspirados em sonhos-desejo perfeitos. Aqueles que surgiram de uma bela expectativa, que quando foram realizados eram ainda melhores do que se pensava, e quando acabaram deixaram uma saudade boa. Então, os sonhos bem vividos poderão ainda ser relembrados, porque seu doce infestou beiços, cabeça, coração. E basta um estalar (ou lamber) de dedos, e aqueles momentos açucarados descerão pela garganta outra vez.

____________________

Um texto sobre a realização de um sonho.

17 de outubro de 2012

O Fim






O livro ainda está entre minhas mãos. Releio a última frase, e olho o vazio que resta na página. Acho que é um pouco do que me resta desse instante: uma alma branca.
Viro a página como se buscasse um epílogo inexistente ou um capítulo secreto reservado apenas para os mais curiosos. Procuro em vão por uma frase mais, uma espécie de consolo para meu abandono.
Mas isso é esperar por uma ressurreição. E, para mim, é certo que o final de um livro é uma pequena morte. Jazem ali os desejos que compartilhei com suas personagens, e morre esse mergulho fantasioso que encheu meu mundo de cores diferentes das de sempre. Num empuxo violento, volto à superfície branca da realidade. Sinto meus pés tocarem o chão mais uma vez, e meus sapatos parecem duros e ásperos.
Aproximo o livro de meu rosto e inspiro profundamente, sem me dar conta da estranheza de tal cena. Não importa, é como se beijasse um amor carinhosamente pela última vez. Pouso o livro em meu colo. Sei que aquela é a nossa despedida.
Nada me preparou para este momento, nem mesmo o tato das páginas emagrecendo em minha mão direita. Perco um mundo que era nosso, do livro e meu. Ganho uma porção de memórias que, se forem boas o bastante, se tornam inesquecíveis.
Sempre achei que havia um quê de mágico nesse instante fugaz em que olhos terminam de correr a última palavra de um livro. É uma espécie saudade de algo que nunca tive.
Depois, o livro volta para a prateleira. Agora, ele torna-se um velho amigo, e um dia abrirei suas páginas amareladas para relembrar as histórias que vivemos juntos, como a nostalgia compartilhada pelos amigos de colégio. Sou capaz de perdoá-lo pela crueldade de ter chegado ao fim quando observo que, assim como o toque dos meus dedos envergou suas beiradas, eu também carrego em mim, para sempre, sedimentos de suas palavras.
  


23 de agosto de 2012

Condenados





Era tarde da noite, e uma chuva de gotas densas caía. Elas explodiam no meu para-brisa, mas em um segundo eram eliminadas pelo limpador, que se mexia desesperadamente, como se fosse uma moça obcecada por limpeza correndo atrás de seus filhos e suas lambanças.
Eu seguia meu caminho, movido pelo silêncio da tempestade caindo sobre a lataria do carro. Perdida em meus pensamentos, poderia ter perdido aquela cena. Mas, alguma força invisível fez com que eu olhasse para a minha direita, logo após fazer uma curva. Curva essa que, aliás, faz parte do meu caminho diário, e na qual nunca havia notado nada.
Naquela noite, sob a tempestade, estavam enfileiradas na calçada dezenas de barracas de acampamento. Encharcadas, a lona sacudindo violentamente ao ritmo da ventania, eram barracas de várias cores e modelos que se assemelhavam a pirâmides irregulares e frágeis, como um Egito às avessas.
O que estariam fazendo ali, além de comunhar a triste solidão de uma noite urbana e gélida? Talvez estivessem à venda ingressos para algum desses shows que fazem as pré-adolescentes chorarem e gritarem, foi o que pensei. Abri mais o meu olhar para o cenário ao redor, buscando mais pistas para desvendar tal intrigante mistério. Vi um muro. Um muro alto. Acima dele, um arame enrolado com pontas, como mil lanças ameaçando para todos os lados. Mais acima, uma torre. Uma guarita com grades e vidros escuros. 
Enquanto eu pensava nisso, o cenário já havia deixado a janela do meu carro, mas continuava aceso em mim. Lá dentro, então, estavam os supostos criminosos, os pecadores, os deturpadores, os corrompedores... É o que se diz. E, fora, estavam aqueles que eram inexoravelmente condenados. Impiedosamente, um carrasco chamado cupido cravou em seus corações a flechada imperdoável da eternidade, que leva as pobres almas atingidas a prepararem os pratos favoritos de alguém e a dormirem sob o manto molhado da noite apenas para poder vê-los sendo saboreados pela boca amada.
Naquelas pequenas pirâmides de pano dormiam os verdadeiros prisioneiros, cujo crime principal poderia ser considerado passional e doloso. Sem atenuantes. Seu delito estava impresso nas portas daquelas barracas molhadas, estava iluminado pelo holofote do farol do meu carro ao passar por eles, estava gravado nos muros altos e protegido por mil lanças. Se dentro estavam confinados aqueles que foram julgados culpados, fora estavam os que pegaram um pouco da culpa para si, misturaram com farinha, lágrimas, um pouco de açúcar e perdão, e transformaram-na em bolo de fubá.

________________

Imagem retirada daqui.

24 de junho de 2012

Cinco anos e meio





Lembro da escada irregular que eu subia, e que era cercada por um matagal disforme, invasivo, que exalava um odor úmido que me dava vontade de fazer inspirações que durassem a eternidade. 
Eu caminhava à frente. Quatro pézinhos de pequenos passos incertos seguiam-me. Meus sapatos tinham pequenas lâmpadas à sola, que piscavam luzes vermelhas no contato com a terra. Eram os sapatos que guiavam quem vinha atrás de mim, pois me dotavam de um certo poder de não só ter meus passos anunciados, como de controlar exatamente o efeito que eles produziam sobre o solo.
Eu olhava para cima, e via que aquela escada não tinha fim. Por um momento imaginava que, talvez, eu permaneceria ali para sempre. Deveria ter me despedido dos meus pais. Eu nunca mais voltaria a vê-los, pois eu tinha a grande missão de subir uma escada infinita e, além disso, tinha a responsabilidade de cuidar dos dois pequenos que me acompanhavam, na crença de que eu sabia o que estávamos fazendo. Eu não queria assustá-los, era melhor guardar toda a verdade para mim: eu não sabia para onde estávamos indo, ou se conseguiríamos voltar.
Pensei em nunca mais tomar o sorvete derretido com chocolate da casa da minha avó e por um segundo tive vontade de chorar. Passou rápido quando olhei para cima - tática infalível -, e os meus olhos encontraram a copa das árvores que gentilmente deixavam passar feixes de luz solar que tocavam de leve a minha pele e secavam meus olhos.
Pior seria se a escada tivesse um fim. Que mil perigos e mistérios poderiam ter lá, no topo? Talvez a casa de um gigante que jamais nos deixaria voltar. Talvez ele nos prendesse em uma gaiola, e teríamos que pensar em táticas para que ele não visse que estávamos gordinhos e saudáveis (prato para uma boa refeição de gigante). Talvez houvesse uma cidade de piratas e bandidos, que nos obrigassem a vestir roupas sujas e a viver com eles para sempre. Talvez uma bruxa má com uma maçã ou um dragão cuspidor de fogo. 
Diante de tantos perigos não foi o medo, mas um espírito de aventura que se apossou de mim. Como se minha subida ganhasse uma trilha sonora de animados sons de trompete e tambores, enchi-me com toda a coragem que eu nem sabia possuir. Voltei-me para aqueles novinhos atrás de mim, me olhavam de baixo para cima com um meio sorriso e com um ar de admiração que me tornou mais poderosa do que mil gigantes.
Ainda subindo, vi que a escada se aproximava de seu final. Pronto. Ela realmente tinha um fim.
Mas agora eu não era mais tão pequenininha, nem tão chorosa: o sol secou minhas lágrimas covardes e eu tinha duas almas para salvar dos perigos do mundo.
Ouvi o ruído seco do meu tênis pisar pesado no último degrau. Finquei meus pés na terra como se hasteasse uma bandeira no topo de uma montanha. Eles chegaram um pouco depois de mim, e nós três ficamos parados olhando ao redor. 
Era incrível como a minha coragem, de tão grande, tinha espantado todos os gigantes, bruxas e piratas que viviam ali. Só havia restado o canto dos pássaros e folhas secas que rodopiavam pelo chão.
E, nessas conversas em silêncio das crianças, gargalhamos juntos, e descemos. Para poder subir mais uma vez.

22 de maio de 2012

Adolescer (ou A dor de ser)




Os cabelos meio desgrenhados, numa dúvida se presos ou soltos. A impaciência que reflete a pressa de quem não sabe muito bem sobre o amanhã.
A maquiagem feita pela metade, que mamãe odeia, mas que é ao mesmo tempo igual a que ela usa. Mas isso não é coisa que se diga.
Os dedos das mãos sujos de caneta, os recadinhos dos amigos que marcam a pele e ajudam a fazer essa solidão errante não entrar pela pele.
A roupa não encaixa mais no corpo. Algo sobra, algo falta. Parece um pouco com esse sentimento aqui dentro, algo que às vezes as músicas que ouço preenchem, e que também escapa de mim quando bato portas. Aumento o volume, e assim aquieto meu turbilhão incessante.
Qualquer coisa, menos todos os outros. Menos aquilo que já existe. Menos aquilo que já conheci. Qualquer coisa, desde que seja nada disso.
Esse novo amigo estranho, o desejo. Sujeito estranho, parece que veio para ficar, e não sei muito bem onde fica o quarto para hospedá-lo.
Casaco de gorro, mãos nos bolsos. Amores de verão e todas as outras estações.
Um sono sem fim, cansaço dessa difícil missão de tornar-se. Correr às cegas, num labirinto de espinhos e labaredas.
Meu nome guardado nas carteiras da escola, só para ter certeza que eu deixo marcas. O espelho mostra um rosto desconhecido.
Sorriso tímido de canto de boca, como quem não tem muita certeza se deve. Revistas que ensinam a beijar.
Uma bomba relógio no último segundo bem no meio do peito. Hora é paixão, hora é medo.
E a vontade louca de saber se o fim do mundo é mesmo na linha do horizonte.

23 de abril de 2012

Pintando o Sete


Foram sete dias para construir o mundo, contando com o dia do descanso, que acabaram se eternizando nos sete dias da semana, que se repetem nas vidas de todos ano após ano. Embora se tornem pouco memoráveis, afinal são poucos os que se lembram se aquilo aconteceu numa quarta ou quinta-feira, os dias da semana organizam nossas rotinas em gavetinhas para que, talvez, tenhamos a liberdade de fazer pequenas bagunças inesquecíveis, como sair para comer esfiha numa terça-feira à noite, ou ir ao cinema numa quinta à tarde, só como desculpa para ficarmos sozinhos.
São sete maravilhas esculpidas pelos ventos, pelos (sete) mares ou por mãos humanas ao longo dos milênios. Mãos que poucas vezes foram reconhecidas por seu trabalho como deveriam, mas que deixaram um legado a todos os filhos deste pequeno planeta. Foram sete sábios da antiguidade, que com certeza cometeram alguns ou todos os sete pecados capitais, e talvez por isso eles tenham sido inventados. Dizem por aí que os sete pecados podem até mesmo caber em uma única caixa!
São sete as vidas que os gatos têm para usufruir, e quanto a nós... Não sei. Sei que esta tem valido muito a pena.
O arco-íris colore o céu depois da chuva com sete cores diferentes e, para surpresa de qualquer designer, o aparecimento de um arco-íris e suas simples sete cores chamam a atenção e os sorrisos de qualquer criança ou ancião, atraem dedinhos surpresos em riste que apontam animadamente. 
Os homens tentaram se aproximar de tal perfeição, e foram capazes de criar sete formas de fazer arte. Numa delas, sete notas musicais são misturadas em diferentes combinações e repetições, que muitas vezes causam arrepios nos pelinhos braços e fazem pensar em momentos já vividos. Mas, na verdade, acho que a única arte que consigo usar com certa liberdade é essa daqui, de dar corpo às ideias e sentimentos usando as palavras que guardei ao longo da vida. Muitas delas tenho dedicado à você, espero que isso não esteja se tornando um pouco chato. Se quiser, posso aprender a usar alguma das seis artes que restam, só para variar um pouco. Mas acho difícil que um dia eu atinja o ideal de expressar em detalhes a perfeição do arco-íris que mora em meu peito quando o assunto é você.
Hoje é dia dos sete anos. Sete anos nossos, sete anos em que há um "nós". Sete anos que levamos para construir o que somos e quem nos tornamos hoje.
Sete anos em que meus sonhos ganham mais um protagonista, e que os seus sonhos passam a fazer parte dos meus planos também. Tanto tempo, é o que todos dizem. 
Acho que eles têm razão, é muito tempo. Sete anos em que escolhi estar com você, dia após dia, sem hesitações ou arrependimentos. 
Sete anos é muito tempo, tempo suficiente para  se conseguir ser feliz como muitos tentam por uma vida inteira. Como já fui com você até hoje, como continuarei sendo a cada dia em que escolhermos continuar sendo um "nós".